
Dentro dos tubos gigantes da “Nazaré do Brasil” com Felipe Lacerda e Benito Dagostin
Niterói, RJ — Toda vez que o swell certo bate na Região Oceânica de Niterói, a Praia de Itacoatiara se transforma em um dos points de ondas grandes mais pesados do planeta. Na última terça-feira, 25 de agosto, foi exatamente isso que aconteceu: paredões de até 5 metros, vento a favor e uma sequência de tubos que colocou novamente o Brasil no radar mundial do big wave surfing.
Foi a 8ª edição consecutiva do Itacoatiara Big Wave (IBW), disputada no formato tow-in — quando uma dupla entra na água, com um surfista sendo rebocado pelo parceiro que pilota o jet ski. O evento é hoje reconhecido, ao lado de Nazaré, em Portugal, como uma das duas principais competições de ondas grandes rebocadas do mundo.
Organizado pela Associação de Surfe de Ondas Grandes e Tow In de Niterói, com apoio da Prefeitura de Niterói e patrocínio de marcas como Red Bull, PRIO e Tidelli, o campeonato distribuiu R$ 150 mil em premiação e reuniu alguns dos principais nomes do surfe de ondas grandes do país.
O resultado
Na categoria Time Masculino, a dupla local Lucas Chumbo e Pedro Scooby confirmou o favoritismo e conquistou o título pela terceira edição consecutiva, somando 14,43 pontos.
A vitória veio com uma sequência de grandes notas. Chumbo marcou 9,57 na primeira fase e 9,83 na semifinal. Scooby respondeu com um 9,87, a maior nota do evento, e depois um 9,77. O surfista também foi responsável pela maior onda surfada no dia, que chegou aos 5 metros.
Após a vitória, Scooby dedicou o resultado ao parceiro:
“As pessoas não sabem, mas ele é muito mais do que a minha dupla dentro d’água. É como se fosse uma família pra mim.”
Em segundo lugar ficaram Willyam Santana e Gabriel Sampaio, com 10,50 pontos. Na terceira colocação apareceram os rocker Felipe Lacerda e Benito Dagostin, que fecharam a competição com 5,80 pontos em condições que ficaram cada vez mais instáveis e fechadas ao longo do dia.
Já na categoria Time Mulher-Homem, o título ficou com Michelle Des Bouillons e Ian Cosenza, que dominaram a bateria em um formato no qual a performance feminina é responsável pela pontuação enquanto o parceiro pilota o jet ski.
Com mais uma edição realizada em ondas históricas, o IBW continua avançando em seu processo de internacionalização. O evento já possui parcerias com Nazaré, em Portugal, e projetos de intercâmbio com outros grandes points do Hemisfério Sul, como Pico Alto, no Peru, e Punta de Lobos, no Chile.
Terceiro lugar, mas com sabor de vitória: Felipe Lacerda e Benito Dagostin

Fechar o pódio do IBW está longe de ser pouca coisa.
Em um dia de ondas fechando rapidamente, leituras difíceis e condições que exigiam precisão em cada decisão, Felipe Lacerda e Benito Dagostin mostraram por que estão entre as duplas mais sólidas do tow-in nacional.
O terceiro lugar em Itacoatiara trouxe não apenas um resultado importante, mas também confiança renovada para o restante da temporada de ondas grandes.
Para entender melhor o que acontece por trás da água gelada, da adrenalina e de toda a logística necessária para rebocar um surfista para dentro de um tubo de cinco metros, conversamos com os dois atletas.

Air reverse na craca. Porque não?!
Felipe Lacerda Interview
- Felipe, terceiro lugar no IBW 2026 ao lado do Benito. Como foi ler essa bateria e sentir que a nota ia garantir o pódio?
A dinâmica da competição era baseada em não criar muita pressão um em cima do outro. A gente construiu uma boa sintonia nos treinos, então o objetivo principal era se divertir e pegar tubo. Uma vez que estávamos competindo contra alguns dos melhores surfistas do mundo na modalidade, tentamos criar mais instigação do que propriamente pressão, pra conseguir fluir. E deu certo.
- Muita gente na internet comentou sobre o “Iron Jet” no seu setup em Itacoatiara. Para quem não é do meio, o que é o Iron Jet e qual a diferença que ele faz na hora de puxar e soltar seu parceiro numa onda daquele tamanho?
O Iron Jet é um projeto que pude começar a partir do momento que percebi que precisava de um corre a mais pra manter o sonho ativo. Como não tenho um patrocinador principal que cubra todos os meus custos de viagem, logística, investimento em material e mídia, pensei: por que não me especializar em jetski e tow-in, viabilizar uma grana e, claro, ganhar experiência na água e em ondas pesadas?
É um método de criar algo mais sustentável entre sessões, treinos e campeonatos. Agora vou iniciar o Iron Boat, que é um projeto à parte do Iron Jet. Vamos fazer saídas de pescaria com lancha, passeios na época das baleias, mergulho e outras coisas que vão além do surf e do big wave, especialmente nos períodos sem onda, como no verão. É justamente pra manter tudo sustentável, porque o sonho é poder dedicar 100% da minha energia e do meu tempo ao surf.
- Você é ligado à Dylan Surfboards, uma das marcas mais respeitadas do planeta quando o assunto é prancha de onda grande. Como foi esse envolvimento com a Dylan e o que muda na sua surfada quando você está em cima de um equipamento pensado especificamente para slabs e ondas pesadas?
Minha ligação com o Dylan foi através da minha primeira participação no IBW, onde competi com uma prancha emprestada da minha namorada, Evelin, de kitesurf sem alça, e consegui fazer a segunda maior nota do evento, garantindo minha vaga pros próximos anos. Depois do evento, consegui a oportunidade de surfar com as pranchas dele e sempre curti muito o trabalho dele, tanto como big rider quanto na construção de pranchas para atletas de performance. Hoje estou surfando com elas, que, pra mim, são algumas das melhores pranchas do mundo pra slab, e fazendo parte desse time brabo de atletas que também surfa de Dylan.
Começar a surfar com essas pranchas e testar esse equipamento muda a linha do surf, a visão de onda e a forma de enxergar as condições, muito pela qualidade do equipamento. E essa intriga só aumenta em todas as condições. Além disso, ter tido esse contato, surfar com ele e conhecer ele pessoalmente também é muito importante pra minha carreira.
- Rola um vídeo circulando de um tubo seu em Itacoatiara que parou a internet. Como foi por dentro daquela onda? Deu tempo de pensar em alguma coisa ou foi tudo instinto?
Tanto em 2024 quanto agora, com o tubo com o Benito, é doido porque estou conseguindo criar um vínculo muito bom com a vala de Itacoatiara. A primeira bomba foi um 9.37 e acabei tendo um destaque muito grande com essa onda, o que me fez competir nos dois anos seguintes. Fui o primeiro capixaba a participar desse evento e agora eu e o Benito fomos os primeiros a fazer pódio. Então acho que, pra história do surf capixaba, a gente está escrevendo esse legado com muito carinho.
Instinto puro. A onda, de fato, dá pra morrer afogado. Assusta real, mas também instiga. Talvez seja o mais próximo que já pude estar de um tubo tão grande quanto Pipeline, kkk. Então essa energia da água que canaliza na costa de Itacoatiara é algo incrível. Minha relação com ela está boa por enquanto. Não quero nenhuma DR com ela, rs.
- Preparação para um campeonato como o IBW não é só surfar grande. Como é a sua rotina de treino física e mental na semana que antecede um swell desse tamanho?
Principalmente a emoção, né? A gente quer sentir emoção quando surfa. Se for pra estar com pouca adrenalina, bem marolado mesmo, prefiro ir pescar, que aí o peixe bate na linha e já deixa mais desafiador, kkk. Agora, a adrenalina de ver a pedra chupando quando você está botando pra dentro do tubo é outra parada. Gosto mais disso.
- Pergunta sem eira nem beira pra fechar: qual é o seu pré-treino, a música que não pode faltar no fone antes de entrar na água e a comida que você não abre mão depois de um dia pesado desses?
Pô, não tem jeito. O som que nunca pode faltar. O pré-treino dos meninos é sempre o rock, né? Anos 2000 pra instigar, desde System of a Down, Slipknot, Linkin Park, Bad Religion, AC/DC. Dos mais antigos, Megadeth, Metallica… É uma porrada de som que faz querer pegar tubo grande. O rango do dia tu sabe: é peixe. Não pode estar faltando. O mar é nosso lar e é isso: alimento saudável que a gente mesmo pesca. Tudo certo! É rock e peixe, fi.

Fotografia de Tony D’andrea
Benito Dagostin Interview
- Benito, o pódio veio com o Felipe como dupla. Como foi a sinergia de vocês dois na água durante o IBW 2026, alternando entre pilotar e surfar?
Eu e o Filipinho temos bastante conexão ali na pilotagem e no surf. A gente tem o mesmo objetivo de onda: BARREELLLL! kkk Então acaba que a sintonia acontece naturalmente, tanto pilotando quanto surfando.
- Fala pra gente sobre a rotina de treino de quem surfa onda grande: quantas vezes por semana você treina fora d’água, o que não pode faltar na preparação física e como você dosa isso com as sessões de surf em si?
Regência é o famoso quintal de casa. Dá altas ondas tubulares, de diversas condições e tamanhos, mas também temos umas direitas mais ao norte que são diferenciadas quando quebram! E competir fora de casa é muito maneiro, porque você vai na estiga de conhecer outras ondas, outras culturas e fazer novos amigos pra vida. Cada lugar traz uma experiência diferente e isso também faz parte da evolução como surfista.
- Você concilia a vida de atleta com a de pai e também com os negócios. Como é o dia a dia pra encaixar treino, viagens de competição, tempo de qualidade com a família e ainda tocar as responsabilidades como empresário?
Ultimamente, pra ser sincero, não tenho treinado quase nada. A galera mais próxima sabe que eu trabalho com roça, e esse período do meio do ano é de muito trabalho por conta da colheita do café, que é o principal momento do ano pra mim. Então a preparação foi mais mental mesmo, tentando colocar em prática toda a experiência que a gente vem vivendo ao longo dos anos. A frequência de surf tem sido quando tem onda… Fora isso, é pilotando trator! kkkk.
Mas vou me dedicar mais aos treinos físicos, porque na final me faltou resistência e força pra conseguir surfar igual às baterias anteriores. Deu cãibra até no cérebro!
- Existe algum momento em que essas três frentes — pai, empresário, surfista — entram em conflito? Como você toma a decisão de quando dizer sim para uma sessão grande e quando priorizar outra coisa?
Cara, não tenho muita regra, levo bem solto e priorizando o que tá na frente naquele momento.Cada hora tem algum desses lados que pesa mais, e aí é a hora que a gente vai tocando o barco de acordo com a maré. Não consigo engessar muito horários, dias e datas pra cada coisa. Surf é da natureza, então deu swell, vira prioridade. Baixou o swell, aí a gente já começa a priorizar outras coisas. O único momento mesmo que a prioridade é máxima é na colheita do café, porque aí não tem jeito. É a hora que a gente organiza a vida financeiramente pra poder fazer o que a gente mais ama com tranquilidade, que é pegar tubos!!!!
- Pra fechar no clima leve: qual o seu pré-treino, a música que embala antes de entrar na água em Itacoatiara e a comida que não pode faltar depois de um dia de ondas grandes?
Como falei acima, a hora da colheita do café não tem negociação com nada. É a hora que a gente se organiza financeiramente pra todo o resto. Então, se dá um swell épico, é claro que a gente dá um jeitinho de dar um treino bem cedo… Mas nada de ir pra longe, porque o tempo fica curto e precioso! Mas depois dá pra recuperar, pois tenho meu irmão, Calixto, de sócio, e ele me ajuda muito a tocar os negócios de uma forma que eu consigo me dedicar ao máximo nos treinos com a Aninha.
Fora minha esposa também, né, que se abdica de vaaaaárias paradas pessoais dela pra estar nessa empreitada comigo e com nossos filhos, Aninha e João Jorge! No fim, é uma construção de toda a família pra conseguir fazer isso acontecer.
Aninha Dagostin — surf feminino e representatividade capixaba

Fotografia de Francine Specht
Aninha Dagostin é uma das novas crias de Regência que vêm mostrando que o surf capixaba está renovando sua geração e ganhando cada vez mais espaço nas ondas grandes. Filha de Benito, que também vem construindo uma história importante dentro do big wave, ela carrega desde cedo essa vivência com o mar e, aos 13 anos, já começa a escrever a própria trajetória.
Na última etapa do Itacoatiara Big Wave, Aninha competiu em dupla com Lucas Chumbo e chegou até a semifinal, dividindo o line-up com alguns dos principais nomes do cenário mundial. Mais do que a idade, chama atenção a evolução e a forma como Aninha vem ocupando esse espaço com muita naturalidade.
Ela representa uma nova geração do surf feminino que está chegando cada vez mais forte, encarando ondas grandes, buscando experiência e mostrando que não existe mais um limite tão definido entre o surf feminino e masculino quando o assunto é performance e coragem no mar. Ver uma menina de 13 anos, cria de uma comunidade tradicionalmente ligada ao surf como Regência, entrando nesse ambiente e ganhando visibilidade é também um sinal muito positivo para todas as meninas que estão começando agora. E, para o surf capixaba, ter Aninha nesse cenário tem um peso ainda maior.
Regência vem revelando talentos há décadas, e agora essa nova geração começa a levar o nome do Espírito Santo para dentro de competições e condições que têm repercussão nacional e internacional.
A presença dela no Itacoatiara Big Wave mostra não só a evolução do surf feminino, mas também que o Espírito Santo continua produzindo atletas capazes de ocupar espaços importantes no cenário das ondas grandes.
É uma história que está só começando, mas que já ajuda a fortalecer a identidade e a visibilidade do surf capixaba.
Um pódio que aponta para o futuro

Fotografia de Ana Catarina
Itacoatiara segue firme como um dos points de tow-in mais respeitados fora do eixo europeu, e a dupla Felipe Lacerda e Benito Dagostin prova que, mesmo fora do topo do pódio, segue entre os nomes mais consistentes do circuito brasileiro de ondas grandes.
O terceiro lugar em uma edição marcada por ondas de até 5 metros, tubos pesados e condições instáveis representa mais um capítulo na trajetória dos dois — e também reforça a força do surf capixaba no cenário nacional.
Agora, fica o convite: acompanhar os próximos passos de Felipe e Benito na temporada e ficar de olho na próxima janela de swell em Itacoatiara.


